Friday, September 05, 2008

"A cega ignorância"

Aposto que você não lembra o que fez no dia 16 de agosto de 2006. É, realmente concordo que de quando em vez é difícil recordar o que fizemos ontem, imagine 2 anos atrás. 
Eu pessoalmente não me recordo exatamente o que fiz neste dia, porém, graças aos veículos de comunicação podemos refrescar nossa memória e constatar que no dia supramencionado, 3 jovens da raça negra foram presos em Guarulhos, SP sob a acusação de terem violentado sexualmente e assassinado a também jovem Vanessa Batista de Freitas de 22 de idade. 
Desde então, estes 3 cidadãos - réus confesso - quando tinham oportunidade de externar seus sentimentos, afirmavam que a confissão do aludido crime tinha sido feita através de tortura. 
De acordo com a alegação dos próprios rapazes, dentre outros métodos usados pela respeitosa polícia de São Paulo para conseguir a confissão estão: sacos plásticos, gás de pimenta, choques elétricos, socos, tapas e pontapés em uma região despovoada de Guarulhos e no 1º Distrito Policial da cidade.
Mesmo não recordando, volto ao dia 16 de agosto de 2006, uma quarta-feira cinzenta de inverno, quando praticamente todos nós, às 20:00hs, assistíamos Willan Bonner anunciar que o horrendo crime de Guarulhos teria sido solucionado prontamente pela policia de São Paulo. Tanto eu, quanto você - por ilação lógica - não suspeitávamos que estes 3 garotos estavam na eminência de sofrer um dano irreparável.
Transcorridos 2 anos e alguns dias, para surpresa de todos, o “verdadeiro"  assassino foi preso. Aquela notícia, que a época nos pareceu “obvia”, transformou-se em mais um grande escândalo atribuído à desastrosa policia paulistana. O cenário deste drama começou a mudar quando Leandro Basílio Rodrigues de 19 anos, chamado pela polícia de "maníaco de Guarulhos", confessou com detalhes ao delegado que havia matado Vanessa em um matagal na periferia de Guarulhos.
O cerne deste problema reside nestas duas questões: por que nunca passou por nossas cabeças que aqueles 3 jovens de raça negra poderiam ser inocentes? Quando iremos saber se a confissão deste outro jovem, Leandro, foi feita espontaneamente? 
Com certeza essas dúvidas nunca serão resolvidas e enquanto isso continuaremos a assistir o noticiário da Globo, sendo influenciados por matérias tendenciosas, ao passo que nós mesmos não nos conhecemos intrinsecamente, deixando-nos levar por comportamentos racistas e preconceituosos enraizados em nossas mentes.
Nesta perspectiva, os 3 jovens não foram tão somente vitimas da polícia, e sim de todos nós - leia-se sociedade - , que somos incapazes de ver um noticiário como o de agosto de 2006 e quedar-nos imparciais.

6 comments:

Anonymous said...

Realmente eu não me recordo o que estava fazendo neste dia. Mas para esses jovens esse dia não terá como cair no esquecimento. Realmente o dano será irreparável.
Um fato como esse não tem reparação mas serve de lição para todo nós acostumados a julgar uma pessoa pela cor...somos todos influenciados pela mídia sensionalista que está muito mais interessada em níveis de audiência do que na informação propriamente dita. A mídia exerce tanta influência e poder em nosso cotidiano que nos direciona a pensar de determinado modo.

Anonymous said...

Como diz o ditado "não devemos julgar o livro pela capa", mas é algo que ocorre no nosso dia-a-dia e até nós acabamos praticando "a cega ignorância". E para aumentar ou ressaltar a nossa deficiência a mídia influência idéias e dita quem deve governa e também decide quem é culpado ou inocente sem se preocupar com todos os detalhes; é o famoso 4° Poder. E com isso levando a erros irreparáveis que me faz lembrar de outro caso "o da creche onde os proprietários foram acusados de abuso sexual" e que foi provado no processo que não eram culpados, mas já era tarde o estrago estava feito a mídia já tinha feito o seu sensacionalismo. E com isso a mídia para dizer que reparou faz uma pequena nota mais nada!E acabam dando sempre as mesmas desculpa! Que é de deixarem os telespectadores ciente do que acontece, mas que na verdade querem enfiar goela abaixo do cidadão. O pior disso é o demasiado controle da mídia nas nossas vidas. Mas o maior estrago foi na vida daquelas pessoas que está ficou machada para sempre. O que fazer!?É tentar filtrar as informações e nunca julgar algo ou alguém sem saber dos fatos!

Leonardo said...

Concordo no que tange à mediocridade da mídia no nosso país. Mas acredito que, nesse episódio, a culpa maior foi da polícia!

FCMO said...

Grande Leonardo,
Por acaso, e pela importância da data, me recordo o que fazia nesse dia - preparava-me para assistir a final da Libertadores do meu Inter contra o São Paulo. Mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é a felicidade do teu texto. Ele é perfeito ao desmascarar o fetiche ao "instantâneo" que vivemos em nossa sociedade. As relações humanas passaram a ser superficiais e a velocidade, hoje, se confunde com eficiência. A Polícia não investiga. Ocorre o crime e ela elabora uma versão. A partir daí, sai colhendo provas no sentido de corroborá-las. Ao mesmo tempo, a mídia compra a versão da polícia, sem qualquer crítica ou questionamento. E nõs, mergulhados nos nossos sofás, recebemos as notícias da TV sem analisá-las. Acreditamos que mais um crime foi solucionado e pensamos: - Que bom, podemos dormir tranqüilos!! Grande abraço Leo, segue assim. Felipe.

Dante said...

Caro amigo Leonardo.
Exclente artigo. Muito bom para uma reflexão de quem somos, para onde estamos indo e onde pretendemos chegar. Está mais que na hora de mudarmos e melhorarmos em prol de um mundo melhor. Mudemos a nós mesmo que mudaremos o mundo, até mesmo a rede Globo. Repassei o endereço do artigo e blog para meus amigos.
Grande abraço. Dante.

Anonymous said...

Caro Leonardo,
É assim mesmo,sempre tem alguém querendo ganhar alguma coisa em troca da tristeza e desgraça alheia.
Parece tudo normal como se fosse um filme diante das telas em nossas casas. Estamos perdendo a capacidade de ver a diferença da realidade sem fazer qualquer reflexão.
Confesso que nessa data não lembro onde estava e o que fiz, talvez seja isso reflexo da minha "cega ignorância"...
Vera Rosangela